HISTÓRIAS SÃO AS BÚSSOLAS DO NOSSO FUTURO

Escrever com o coração pode parecer clichê — e, de fato, é —, mas isso não significa que esteja errado. Não vejo outra razão para escrever senão transformar em palavras aquilo que sentimos, imaginamos ou somos. Na verdade, acredito que qualquer forma de expressão artística gira em torno disso: externalizar o que, de outra forma, permaneceria intangível dentro de nós.

No entanto, vivemos em um tempo particularmente difícil quando abordamos essa questão. Nós, da era digital, inseridos na sociedade líquida — como descrevia Zygmunt Bauman — percebemos que a volatilidade passou a reger praticamente tudo. A constante transformação de conceitos, a desconstrução de princípios e diversos outros fatores nos levam a acreditar que não existe mais certo ou errado. Há, sim, uma parcela de verdade nisso, mas não completamente.

Existe, sim, um critério. Existem livros bons e livros ruins. E não digo isso como alguém que escreveu obras excelentes, mas como alguém que já leu boas obras — e raramente se deparou com algo realmente ruim sem perceber. Conseguimos identificar quando um livro é fraco, e isso ocorre por um motivo claro: o apelo inconsciente às referências repetidas. Tudo começa a parecer mais do mesmo.

Inclusive, há livros que sequer se apoiam em narrativas ou fantasia. Estão mais voltados ao desenvolvimento pessoal e à autoajuda, mas acabam sendo praticamente idênticos entre si — mudam apenas palavras, estruturas ou capítulos. E tudo isso em função de um único objetivo: dinheiro, Vendas e lucro.

Os responsáveis por esse tipo de produção, na maioria das vezes, não estão interessados em criar algo genuíno ou oferecer uma solução real. Estão apenas seguindo o fluxo do mercado. Se algo está em alta, multiplicam-se os títulos com pequenas variações. Alguns enriquecem com isso, outros nem tanto, mas todos acabam falando a mesma língua: valor financeiro.

Sendo direto, eu não os julgo. Houve um período em que eu mesmo estive inclinado a fazer um “copywriting” de um livro. E aqui vale esclarecer: copywriting não se resume a escrever bons anúncios — pode também significar absorver completamente o conteúdo de uma obra e reescrevê-la com outras palavras.

Sim, exatamente isso.

E, por mais absurdo que pareça, existe mercado para isso. Ainda existem pessoas que vendem o serviço de “copiar” livros e transferir os direitos dessas versões para terceiros. Com o avanço da inteligência artificial, é plausível que esse tipo de prática tenha até aumentado.

Mas a realidade é simples: dificilmente isso gera retorno consistente ou duradouro.

Na época em que quase cometi esse erro, ao chegar no fim do último capítulo, percebi exatamente o que estava fazendo. E abandonei tudo. Apaguei o projeto inteiro.

Foi ali que tomei uma decisão: não ceder apenas por dinheiro. Apesar de o fator financeiro sempre ocupar espaço no pensamento, um autor inevitavelmente enfrentará esse tipo de dilema. Em algum momento, ele precisará decidir o que tem mais valor — o retorno financeiro ou aquilo que o próprio coração aponta.

E é importante deixar claro: escrever com autenticidade não impede retorno financeiro. Mas, realisticamente, pode tornar esse retorno mais difícil ou mais lento.

No fim, tudo se resume à persistência e à convicção naquilo que se sente. Como já mencionei em outro texto, se você persistir todos os dias — mesmo que pouco — e possuir vocação, é extremamente improvável que não alcance aquilo que busca.

O problema é que, muitas vezes, nem sabemos exatamente o que buscamos.

Quando comecei a escrever, era apenas uma válvula de escape. Um meio de aliviar tensões. Com o tempo, percebi que aquilo poderia se transformar em um livro. E, naquele momento, meu único desejo era simples: ter aquele livro pronto, finalizado, nas minhas mãos.

Durante o processo de publicação, uma nova camada surgiu — a ambição. Comecei a imaginar vendas, números, ganhos financeiros.

Depois da publicação, veio a frustração.

E a consequência disso foi uma mudança de perspectiva.

Hoje, meu objetivo é outro: quero que o livro esteja exatamente como eu imagino. Quero publicar todas as histórias que carrego — algumas já em andamento, outras finalizadas, e muitas ainda como ideias soltas.

Quero publicar todas.

Mesmo que isso represente apenas custo, não me incomoda. Porque o objetivo principal é finalizar cada obra como ela deve ser: fiel à intenção original, construída com precisão, transmitindo exatamente aquilo que precisa ser transmitido.

O resto sempre será consequência.

É claro que existe outro caminho. Você pode escrever um livro — ou pagar para que alguém escreva — utilizando técnicas, gatilhos, estratégias de venda, aliado a uma boa campanha de marketing e uma grande editora. E sim, isso pode gerar muitas vendas.

Isso é válido.

Mas existe um problema estrutural nesse tipo de obra: ela nasce com um único propósito — vender. E, por isso, tende a morrer rápido.

Por outro lado, existem livros que são escritos para marcar. Para transformar. Para permanecer.

Há livros que li e que continuam vivos na minha memória. E provavelmente permanecerão assim.

Essas obras foram escritas com o coração. O autor não colocou o lucro como prioridade máxima, mas sim o impacto.

E aqui há um ponto importante: livros realmente bons geram valor. Inevitavelmente.

O que não pode ser previsto é quando esse reconhecimento acontecerá.

Mas ele acontece.

Por isso insisto tanto na ideia de fazer aquilo que realmente vale a pena. Criar algo que carregue fragmentos reais de quem você é.

Mesmo em um mundo cada vez mais volátil — líquido, incerto — não podemos perder nossas raízes. Foram elas que sustentaram a evolução humana até aqui.

Se hoje temos tantas capacidades, é porque, no passado, pessoas tomaram decisões sólidas. Pessoas se dedicaram a construir bases consistentes — não apenas no campo científico ou acadêmico, mas também no imaginativo, no fictício, no simbólico.

E é justamente essa dimensão que impulsiona o ser humano a buscar o que antes parecia impossível.

A imaginação molda o futuro de forma direta.

Por isso, acredito que todos aqueles que aspiram trabalhar com arte — seja como escritores ou em qualquer outra forma de criação — devem, antes de tudo, escrever com o coração.

Que cada linha carregue fragmentos reais do próprio ser.

Porque, no fim, é isso que constrói o futuro.

E, se possível, que esse futuro seja sustentado por conteúdos autênticos — e não por cópias ou referências vazias.

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