DICAS NA CRIAÇÃO DE UM PERSONAGEM PARA INICIANTES

Introdução e problema

Um dos grandes problemas com que autores se deparam ao escrever é a criação de um personagem. Pode parecer fácil no princípio, entretanto, a parte mais complicada surge quando criamos uma história e precisamos alimentá-la com as ações dos personagens — é aí que mora o problema.

É muito fácil começar a se perder em diversos aspectos, até mesmo em coisas básicas que, após o livro pronto, podem passar despercebidas. Como, por exemplo, os princípios do personagem: às vezes, no futuro da narrativa, pode acontecer de um arco da história fazer com que esse personagem contradiga algo que antes você havia definido que ele jamais faria.

Até erros comuns acontecem — e eu já vi isso em grandes obras —, como inconsistências nas características físicas do personagem ao longo do livro. São coisas que, para mim, não desclassificam a obra como um todo, porém, ninguém quer esse tipo de erro no próprio livro.

Primeira solução – construção separada

Para resolver isso, não há uma maneira fácil. Existem duas coisas que você pode fazer para evitar esse tipo de erro. A primeira delas é a construção separada.

Caso você já saiba exatamente o rumo que a história levará, os conflitos internos do seu personagem, como ele é, sua personalidade e muitos outros elementos que englobam a criação de um protagonista — ou de personagens importantes para a trama —, então você deverá fazer um guia sobre ele.

Você criará uma espécie de biografia do personagem. Não necessariamente precisa detalhar tudo o que ele fez na vida ou fará na história, mas sim registrar aquilo que você já sabe sobre ele, incluindo suas características físicas.

Hoje, com a IA, tornou-se algo extremamente fácil tirar algo da sua mente e transformar em uma imagem próxima do que você imaginou. Então, a primeira coisa que você deve fazer é montar a imagem mental do personagem e, em seguida, utilizar uma ferramenta de IA.

Antes, para criar minhas artes, eu utilizava a OpenArt, ferramenta dedicada à criação de imagens da mesma empresa do ChatGPT, a OpenAI. Porém, atualmente, acredito que o próprio Chat já permite criar imagens com muita qualidade.

Uma recomendação importante é utilizar referências prontas: isso facilita bastante o processo. Use imagens de textura, aparência ou até mesmo de personagens já existentes, caso você tenha alguém em mente como base. Mas, claro, sempre colocando sua originalidade nisso, para não cair no clichê.

Planejamento do personagem

Com a imagem do seu personagem pronta, o próximo passo é escrever com o coração tudo o que você sabe sobre ele.

Comece pelas características físicas, depois passe para a personalidade, em seguida os princípios, a moral e, por fim, a importância dele dentro da história.

Ao construir esse mapa escrito do personagem, você já terá uma base sólida para saber como posicioná-lo ao longo da narrativa.

Segunda solução – revisões

A segunda coisa — e, para mim, a mais exaustiva — são as revisões. Isso é inevitável.

Não adianta pagar alguém ou simplesmente deixar essa responsabilidade nas mãos de uma editora. Você pode, sim, contar com ajuda para corrigir erros básicos ou até graves, porém, quem criou a história foi você.

Por isso, diversas revisões completas do livro precisarão ser feitas por você mesmo, e isso consumirá uma boa parte do seu tempo.

E um ponto importante: IA, nesse caso, não resolve totalmente. Eu não confio plenamente que ela corrija ou altere elementos da sua história de maneira correta. Já utilizei bastante IA e posso afirmar: quando ela diz que está tudo certo, é preciso cautela.

Se você analisar com atenção o que foi feito, provavelmente encontrará inconsistências. Talvez ferramentas mais avançadas reduzam esse problema, mas nem todo mundo tem condições de investir valores altos mensalmente nisso.

Então, para quem está construindo sua trajetória, como eu, o caminho é claro: revise sua obra. E não uma ou duas vezes — várias vezes — até chegar ao ponto em que você realmente sinta que não há mais o que melhorar.

Com o tempo, esse processo se torna mais natural.

Resultado das técnicas

Com essas duas práticas, será muito difícil que um personagem bem construído e original se perca dentro do texto ou apresente inconsistências — sejam elas técnicas, comportamentais ou físicas — ao longo da história.

Claro, como eu disse, até grandes obras possuem esse tipo de erro. Isso sempre pode acontecer. Mas o objetivo deve ser sempre minimizar ao máximo, buscando uma obra o mais consistente possível.

Profundidade emocional

Outro ponto importante que quero destacar é sobre criar personagens a partir de experiências que você domina.

Não estou dizendo que, para criar um guerreiro, você precisa saber manusear uma espada. Mas, nesse caso, é importante ter pelo menos um conhecimento básico — técnico, físico e até histórico.

No entanto, o ponto principal está nos conflitos internos e nas influências sobre a história. Traga para o texto experiências que você compreende: relacionamentos, dor, felicidade.

Transfira para a narrativa a forma como você percebe e sente essas coisas. É isso que torna um texto verdadeiramente original.

Quando um personagem é criado com esse nível de conexão emocional, as chances de ele se tornar autêntico aumentam significativamente.

Mas é importante tomar cuidado: não confunda originalidade com complexidade.

Existem personagens complexos, sim, mas eles são raros. E, em muitos casos, nem são necessários. Em histórias únicas, um ou dois personagens mais complexos já são suficientes.

Se for uma série de livros, há mais espaço para desenvolver essa complexidade de forma gradual. Mas, em um único volume, menos complexidade tende a funcionar melhor.

 Experiência pessoal e conclusão

Essas são técnicas que já utilizei na criação de personagens, e posso afirmar que são eficientes.

Atualmente, no entanto, não utilizo mais nenhuma técnica específica. Eu simplesmente escrevo e deixo a história seguir seu próprio rumo — tanto na criação dos personagens quanto no desenvolvimento do enredo.

Para mim, escrever uma história cujo desfecho já conheço se tornou algo monótono. Por isso, optei por permitir que minhas histórias me surpreendam.

Mas levei tempo até conseguir fazer isso mantendo a coerência narrativa.

Hoje, utilizo o método conhecido como discovery writing (escrita por descoberta), pois me sinto confortável assim e consigo manter um nível aceitável de consistência ao longo da história.

Ainda assim, para iniciantes, recomendo começar com o outlining (escrita planejada).

No fim, o mais importante é escrever da forma que faça sentido para você. O restante vem com o tempo — seja através dos erros ou dos acertos.

Mas, acima de tudo, escreva com o coração. O restante será consequência.

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