Acredito que qualquer pessoa — escrevendo ou não — em algum momento da vida vai se deparar com esse conflito. Principalmente quem não nasceu em berço de ouro e, ainda assim, descobre dentro de si uma inclinação artística.
No início, isso raramente gera retorno. E tudo bem — não fazemos por dinheiro. Não vou ser hipócrita: ajudaria muito. Mas certas coisas fazemos por amor. No meu caso, escrever não é opcional. A vida sem registrar o que vivo ou imagino simplesmente perde o sentido. Nunca entendi exatamente o porquê, mas também nunca consegui evitar. Posso passar um tempo sem escrever, mas cedo ou tarde volto — no celular, em um papel, no computador. É uma necessidade involuntária.
No começo, era só um hobby. Sem pretensão. Mas o tempo passa. A criança vira adulto, e junto com isso vêm as responsabilidades. É aqui que o problema começa.
Você trabalha. Precisa trabalhar. Mas aquilo que você ama não paga as contas. E o ciclo se repete. Você tenta encontrar uma saída, mas ela não aparece com facilidade. Aos poucos, isso vai consumindo você.
Em muitos casos, é onde o indivíduo, com um universo inteiro dentro de si, o mata por completo e assume a vida cotidiana, esquecendo tudo aquilo que um dia almejou fazer. Pela minha breve experiência de vida, vejo que isso é mais comum do que pensamos.
Estamos rodeados de pessoas incríveis à nossa volta, cheias de vocação para diversas coisas, mas que, a cada dia, veem seus sonhos morrerem, pois as contas chegam e não há nada que possam fazer para mudar isso. Não há força, não há outro modo aparente de mudar essa situação.
No meu caso, por exemplo, quantas vezes cheguei em casa após um dia exaustivo de trabalho e fiz planos. Porém, ao chegar, a única coisa que eu desejava era minha cama. E, ainda assim, nem isso eu podia desfrutar, pois há uma casa, louça, comida para fazer, além de outros afazeres em geral.
No outro dia, tudo se repete. E quando o final de semana chega, você faz novos planos e, por fim, termina na cama dormindo ou fazendo qualquer outra coisa, mas que não está alinhada com seu sonho, nem com a necessidade de alimentar a vocação intrínseca dentro de você — aquilo que você sente, no fundo, que nasceu para fazer.
No entanto, lhe digo: tome cuidado ao sacrificar diariamente o combustível desse sentimento, pois haverá um dia em que ele poderá desaparecer, e talvez você nunca mais o encontre da mesma forma.
Não há muito o que eu possa dissertar sobre esse tema além daquilo que vivo. E, sendo bem sincero, até hoje não encontrei uma técnica ou fórmula para solucionar isso.
Talvez, ano que vem, eu publique mais dois livros — já publiquei um —, e, ainda assim, não consegui mudar completamente essa realidade. Continuo trabalhando nove horas por dia, chego cansado, e nos finais de semana só quero descansar.
Também não vou vender a ideia de que basta “ser mais forte” ou virar uma máquina de disciplina. Isso não sustenta por muito tempo. Já tentei.
Funciona por um período, mas cobra um preço. Você muda, força processos que deveriam ser naturais, e isso afeta diretamente o seu lado criativo.
Criar não é o mesmo que produzir sob pressão constante.
Tentar manter alto desempenho em duas vidas paralelas — a funcional e a criativa — raramente funciona de forma plena. Em algum momento, algo cede.
E sim, existe a decisão radical: abandonar tudo e apostar apenas no seu lado artístico. Algumas pessoas conseguem. Mas muitas não. E quando não conseguem, o impacto costuma ser definitivo.
Por isso, esse caminho também não é tão simples quanto parece.
Então, retomando: você dificilmente conseguirá manter duas vidas funcionando em 100%. Terá que tomar uma decisão arriscada, caso escolha o destino que aflora seu lado artístico, saiba que há riscos reais.
Sendo assim, lhe apresento a existência de um terceiro caminho — um que eu sigo, e assim consigo continuar.
Não é ideal. Não é rápido. Mas é viável.
Eu nunca pensei em ser escritor. E, até hoje, não me vejo exatamente assim. Me vejo como alguém que pensa — e escreve o que pensa. Só isso.
E, ao longo dos anos, isso foi gerando resultados.
Hoje, eu aceito um ritmo diferente. Às vezes passo meses sem escrever. Em outras semanas, escrevo mais. Retomo projetos antigos, início novos, abandono alguns.
Mas nunca deixo morrer completamente.
É um trabalho lento. Quase invisível.
Levei 15 anos para publicar meu primeiro livro.
E está tudo bem.
E, após essa primeira publicação, talvez no próximo ano eu lance mais dois, seja por uma editora ou de forma independente. E assim a vida segue. Já existem novos projetos na minha mente, e continuarei avançando aos poucos — um dia sim, outro não, ou um pouco todos os dias.
Enquanto a estabilidade não vem — e talvez nunca venha — eu continuo alimentando isso aos poucos. Sem pressa. Sem ruptura.
Existe uma ideia comum na filosofia japonesa: dedicar todos os dias um pequeno tempo a algo, de forma consistente, não se trata de intensidade, e sim consistência.
É nisso que acredito.
Se você fizer um pouco todos os dias, durante anos, o resultado é inevitável.
No meu caso, o objetivo nunca foi dinheiro. É concluir as obras. Torná-las reais. O resto é consequência — se vier.
O verdadeiro desafio desse caminho não é fazer 15 minutos hoje.
Mas manter isso por anos.
Isso depende exclusivamente de você.
Porém, agora você entende que não precisa se desgastar por horas todos os dias. Basta viver sua rotina e, mesmo após um dia cansativo, dedicar um pequeno esforço consistente. Isso já muda o cenário.
Não quero dizer que é fácil — não é. Já houve momentos em que passei 10 horas seguidas escrevendo. Isso também acontece.
Mas a mensagem central é outra: quando existe uma vocação verdadeira, mesmo pequenas ações consistentes geram resultados ao longo do tempo. Essa é uma forma real de conciliar vida e sonho.
Nunca deixe de alimentar seu eu artístico, mesmo que pouco, e tenha a absoluta certeza de que se você todos os dias encher este poço com um pouco de água, ela um dia irá transbordar.
Bom, espero que você nunca deixe seu eu artístico morrer. Alimente sempre que possível sua vocação natural, pois isso é essencial para que seus sonhos não desapareçam.
Afinal, Você — assim como todos nós — merece isso.
Nascemos para fazer aquilo que fomos criados para ser.
E, sendo bem sincero, um artista sempre será um presente para o mundo, seja escritor, pintor, músico, entre muitas outras formas de arte que existem no mundo. Todos são um belo presente para a sociedade.