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Análises

Solaris – Em direção ao desconhecido review

O ENIGMA IMERSIVO DE SOLARIS Hoje nós vamos falar sobre uma obra que é frequentemente rotulada como ficção científica, mas que o seu próprio autor, Stanislaw Lem, preferia chamar de um livro de ciência. Escrito há mais de 70 anos, na década de 1950, Solaris é o pioneiro absoluto daquilo que hoje conhecemos como terror psicológico espacial. Mas se você entrar nessa história esperando apenas um suspense interestelar com um monstro alienígena irracional, você vai quebrar a cara. Ao ler Solaris, a primeira coisa que salta aos olhos é a profundidade técnica absurda do autor. Lem se empenha de maneira minuciosa para descrever cada detalhe: a textura dos materiais, os termos de viagem espacial, as operações das naves e os cálculos astronômicos. Não são termos inventados para parecerem bonitos; são descrições tão reais que fazem o livro parecer não uma ficção, mas a crônica realista de um futuro possível para a nossa navegação espacial. Essa escrita cirúrgica, técnica e objetiva, misturada a momentos de uma poesia visual avassaladora, cria uma atmosfera única. É um livro denso, difícil, onde basicamente a metade da obra se passa em um único dia. Toda a trama acontece em apenas três dias, tornando a experiência extremamente concentrada. E aqui vai uma dica de leitura que eu percebi: não tente entender tudo conscientemente. Deixe-se levar. O entendimento inconsciente de algumas partes científicas torna o processo incrivelmente prazeroso. E por que essa densidade importa? Porque ela nos prepara para o labirinto psicológico que está por vir. Imagine uma estação espacial desorganizada, claustrofóbica, servindo de recinto para apenas três tripulantes que já perderam totalmente as noções básicas da realidade. É nesse espaço reduzido que o protagonista, Kris Kelvin, desembarca. O cenário que ele encontra não é o de uma missão científica gloriosa, mas o de um hospício tecnológico. De início, a sensação é de que o livro é puramente sobre manter a sanidade. Kelvin começa a caminhar por esse labirinto de metal e, aos poucos, vai encontrando peças de um quebra-cabeça na sua busca por respostas. Só que essa busca é interrompida pelo pior tipo de assombração: fantasmas que não são fantasmas de verdade, pois eles são físicos. Eles têm peso, massa, carne e osso. É aí que o terror psicológico se mistura com a exuberância poética do cenário. O autor nos joga em um paradoxo visual: do lado de fora, a beleza alienígena com raios violetas gerados por um sol azul; do lado de dentro, a perturbação mental extrema de Kelvin ao ser obrigado a aceitar a companhia de sua ex-esposa, Rheya, que se suicidou há anos na Terra. Essa dualidade é uma loucura completa. Como processar estar a bilhões de quilômetros de casa, sob a luz de um sol azul, dividindo um quarto com o reflexo físico da sua maior culpa? É um thriller psicológico espacial levemente — mas bem levemente — aterrorizante, que em alguns momentos flerta com a sensação de uma paralisia do sono, onde você não sabe se o que está acontecendo é real, mas o autor te força a crer que sim. Se você gosta de jogos ou filmes como Iron Lung, Death Stranding ou o filme Aniquilação, saiba que todos eles beberam diretamente da fonte e da atmosfera angustiante que Stanislaw Lem criou aqui. A partir de certo ponto, o livro muda de tom e passa a focar profundamente no grande mistério da obra: o oceano de Solaris. Essa criatura colossal, um plasma unicelular que cobre todo o planeta, recebe páginas e páginas de descrições detalhadas sobre suas particularidades que o tornam vivo. Para o leitor que tenta visualizar e criar na mente todas as explicações biológicas e físicas da criatura, essa parte se torna extremamente desgastante, beirando o desagradável. Mas foi justamente nesse excesso absurdo de informações que eu entendi o verdadeiro trunfo de Stanislaw Lem. Lem utiliza o que podemos chamar de “erudição fictícia”. Ele inventa citações, artigos científicos, notas de rodapé e nomes de estudiosos como se eles realmente tivessem existido na história da humanidade. No entanto, todas essas pilhas de estudos e teorias tentam compreender o oceano, mas nunca chegam a lugar nenhum. É aí que você percebe que Solaris é, na verdade, uma grande sátira. Uma sátira à ciência e ao desejo inabalável do homem de querer entender e categorizar tudo. A humanidade cria uma ilusão, uma nova linguagem técnica, apenas para ter a falsa sensação de progresso e entendimento. Mas, no fundo, a ciência humana não compreendeu absolutamente nada sobre o oceano. O mistério de Solaris fere o coração do homem porque nós esperávamos encontrar no espaço as respostas para a nossa própria existência. Em vez disso, encontramos apenas mais dúvidas. É um banho de água fria na prepotência humana: nós nos julgamos os seres mais inteligentes do universo, mas a verdade é que a ciência humana nunca andou nem 0,000001% na escala do conhecimento universal. Essa estatística nunca vai mudar. Somos pequenos demais para compreender aquilo que não foi feito para ser compreendido pela razão. E é exatamente onde a ciência falha que os poetas se deleitam, pois eles têm a capacidade intrínseca de sentir e entender o que as mentes mais lógicas do mundo nunca conseguirão explicar. Um exemplo máximo dessa incompreensão são as simit ríades. O autor descreve com maestria essas formações colossais que emergem do oceano, estruturas de uma complexidade e tamanho tão gigantescos que desafiam as palavras e a própria imaginação humana. Por trás de toda a casca de ficção científica e debates astronômicos, Solaris esconde uma história dolorosa sobre o amor, o arrependimento e a segunda chance. O oceano vivo tem a capacidade de mapear as ondas elétricas do cérebro dos tripulantes enquanto eles dormem e sonham, materializando suas memórias mais profundas e secretas. No caso de Kelvin, o oceano extrai o seu desejo incomensurável de poder ter feito tudo diferente no passado e lhe entrega Rheya. Mas ela não é exatamente a Rheya real; ela é um clone plasmático, um reflexo do próprio Kelvin. O mais fascinante